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SAF: o modelo que transformou o futebol em negócio

  • Foto do escritor: Fernanda Gaspar
    Fernanda Gaspar
  • 16 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 24 de nov. de 2025

O futebol sempre foi paixão, arquibancada cheia, rivalidade e emoção. Mas, nos últimos anos, essa mesma paixão passou a conviver com outra lógica: a do mercado. 


Clubes que antes viviam da força de seus torcedores e da gestão associativa agora se transformam em empresas, com acionistas, balanços auditados e executivos no comando. É nesse cenário que surge a Sociedade Anônima do Futebol (SAF), modelo que redefine o jogo dentro e fora de campo.


Durante décadas, a maioria dos clubes seguiu o modelo associativo: sócios elegem presidentes e conselhos, e as decisões passavam pelo crivo dos associados. Um sistema tradicional que reforçava a ideia de pertencimento, mas que também escancarou fragilidades. Endividamento, má gestão e até casos de corrupção se tornaram frequentes e ganharam as manchetes. A pressão por profissionalização, com investimentos em infraestrutura, categorias de base e estádios, mostrou que o associativismo já não bastava. Foi nesse ponto que o futebol abriu caminho para as SAFs, que visam unir paixão e negócio em um mesmo campo.


Na prática, a SAF separa o clube do CNPJ. A associação original segue existindo, na maioria dos casos preservando símbolos e tradições, mas o futebol passa a ser administrado por uma nova entidade jurídica, com poder para captar investimentos, negociar ações no mercado e assumir dívidas. Em troca, exige-se uma gestão corporativa, com cargos como CEO substituindo a figura do dirigente antes considerado amador. 


Essa transição é vista como necessária, mas não infalível. Afinal, a SAF pode significar profissionalização e transparência, mas também pode abrir portas para a falência ou o distanciamento do torcedor. Como resume o jornalista Marcelo Hespaña, a SAF é uma grande "onda": "Ela é necessária, tem cheiro de modernidade, mas depende essencialmente de quem a gerencia. Não é a SAF pela SAF.”


Esse movimento não nasceu por acaso. A transformação de clubes em empresas começou a se desenhar na Europa nos anos 1990, quando ficou evidente que o futebol havia ultrapassado a fronteira do entretenimento popular e se tornado uma indústria bilionária. Com novas exigências de infraestrutura e contratos de televisão cada vez mais robustos, as federações perceberam que o modelo associativo não garantia estabilidade financeira nem competitividade internacional.


Cada país, no entanto, adotou caminhos diferentes:

  • Inglaterra: pioneira, com a criação da Premier League em 1992, abriu espaço para investidores privados, nacionais e estrangeiros. O campeonato rapidamente se tornou o mais rentável do mundo, e clubes como Manchester City e Chelsea viraram superpotências globais.

  • Alemanha: preservou o vínculo comunitário com a regra do 50+1, aprovada em 1998, que garante aos sócios a maioria dos votos em qualquer decisão, mesmo com entrada de capital externo.

  • Espanha: adotou a Ley del Deporte em 1990, que obrigou quase todos os clubes a se tornarem sociedades anônimas, com exceção de quatro gigantes, Real Madrid, Barcelona, Athletic Bilbao e Osasuna, que mantiveram o modelo associativo por sua relevância cultural e financeira.

  • Itália: instituiu o Teste de Integridade, impedindo empresários envolvidos em falências ou crimes de assumirem clubes e prevendo punições severas em caso de fraude.

  • França: endureceu a fiscalização em 2017, quando a Direction Nationale du Contrôle de Gestion (DNCG) ganhou mais poder para supervisionar contas e chegou a aplicar rebaixamentos automáticos a clubes irregulares, como Bastia e Strasbourg.

Os resultados foram variados. O Manchester City representa o caso mais emblemático de sucesso, tendo saído da irrelevância para o topo mundial com os investimentos dos Emirados Árabes Unidos. Mas há também exemplos de fracasso: o Málaga, da Espanha, chegou a disputar a Liga dos Campeões, mas mergulhou em divisões inferiores após a retirada dos investidores. Histórias assim reforçam que a SAF pode ser um trampolim ou uma armadilha, dependendo da seriedade e do comprometimento do projeto.




Mais do que questões financeiras, porém, as SAFs podem mexer com identidade. Torcedores temem ver símbolos e tradições apagados por interesses comerciais, mesmo que, em campo, os resultados sejam vantajosos.  “Os riscos de perda de identidade são enormes, catastróficos do ponto de vista histórico. O Bragantino é o maior exemplo. Aquela camisa quadriculada, tão tradicional, hoje foi substituída pelo uniforme do Red Bull. Isso não é apenas marketing, é uma questão cultural, de raiz, de gerações", lembra o jornalista Hespaña, sobre o caso mais emblemático no Brasil.


De fato: por mais que muitos ainda chamem de Bragantino e a Red Bull tente reforçar algumas conexões com o passado, é inegável que o clube mudou de nome, de cor e de mascote. Por outro lado, voltou a disputar a elite do futebol nacional, conta com um investimento inédito e está criando uma estrutura pouco vista no Brasil, com um projeto de estádio mais moderno e um novo centro de treinamentos.


Como fica esse debate?

Se para o torcedor a SAF pode soar às vezes como ruptura, para o investidor ela representa oportunidade. Arquibancada cheia significa também mercado consumidor e não são apenas os gigantes que atraem interesse. O futebol, nesse contexto, se transforma em produto, e o torcedor, em cliente.


Seja na Inglaterra, na Espanha ou no Brasil, uma certeza já existe: o futebol nunca mais será administrado da mesma forma. A SAF não é salvação, mas uma ferramenta. “Mais do que o modelo, o que define o futuro das SAFs é quem está por trás dele. O risco é que investidores desistam no meio do caminho. Por outro lado, quando há seriedade e capacidade financeira, o legado pode ser transformador”, completa Hespana.


O futuro, portanto, caminha para um equilíbrio: de um lado, o capital privado; de outro, a preservação da cultura. Um jogo ainda em disputa, mas que já mudou as regras do esporte mais popular do mundo.



 
 
 

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