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O Grupo Oscar e um novo caminho para o São José Esporte Clube

  • Foto do escritor: Fernanda Gaspar
    Fernanda Gaspar
  • 22 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Depois de um dos períodos mais difíceis de sua história, o São José Esporte Clube iniciou um processo de reconstrução que culminou em uma das mudanças mais significativas de sua trajetória. O rebaixamento para a Série B do Campeonato Paulista no fim da década de 2010 simbolizou quase o fundo do poço para um clube que já havia disputado finais de Paulistão: a quarta e última divisão, a um passo do amadorismo. 


Foram anos de incertezas, com salários atrasados, escassez de recursos e uma estrutura fragilizada. Em 2020, após sucessivas tentativas em vão, a equipe conseguiu organização e elenco para conquistar o acesso à Série A3, em meio à pandemia da Covid-19, reacendendo a esperança de tempos melhores e abrindo espaço para uma reestruturação mais profunda.

Jogo do acesso à Série A3 do Campeonato Paulista - Foto: São José E.C/Tião Martins
Jogo do acesso à Série A3 do Campeonato Paulista - Foto: São José E.C/Tião Martins

Em 2022, o Conselho Deliberativo do clube aprovou a mudança de estatuto que permitiria a transformação do São José em Sociedade Anônima do Futebol (SAF). A decisão, votada em assembleia, tornou a Águia do Vale apta a negociar com investidores privados e representou um divisor de águas em sua gestão. Ficou definido que o novo investidor não poderia alterar o nome, as cores ou a sede do clube - garantias simbólicas de que o São José continuaria sendo o clube da cidade, mesmo com a chegada do capital privado. A dívida estimada, na época, girava em torno de R$20 milhões, e o compromisso de quem assumisse a SAF seria o de ajudar a saná-la gradualmente.


A chegada do Grupo Oscar

Pouco tempo depois da mudança estatutária, em agosto de 2022, o São José assinou um memorando de intenções com o Grupo Oscar Calçados, liderado pelos empresários Oscar e Bruno Constantino. O acordo marcou o primeiro passo formal para a criação da SAF e definiu que o grupo assumiria o departamento de futebol, da base ao profissional, bem como as responsabilidades financeiras do clube. Após auditorias e diligências, o processo foi concluído, e em outubro daquele ano a SAF foi oficialmente apresentada em evento na sede do clube, com a presença de autoridades, torcedores e imprensa.

Apresentação do São José Esporte Clube SAF, pelo Grupo Oscar Calçados - Foto: Agência NTZ/Mariana Luz.
Apresentação do São José Esporte Clube SAF, pelo Grupo Oscar Calçados - Foto: Agência NTZ/Mariana Luz.

Na cerimônia, Oscar Constantino destacou o desejo de “resgatar o orgulho joseense” e devolver à cidade parte do que ela representou em sua trajetória empresarial. Seu filho, Bruno Constantino, ex-jogador de futebol e atual CEO do grupo, enfatizou a importância de modernizar a gestão, investir em marketing e ampliar o relacionamento com a torcida. Entre as primeiras medidas, foram anunciadas a criação do novo programa de sócio-torcedor “Sócio Águia”, a revitalização da identidade visual do clube e o lançamento de uma loja oficial com linha de produtos exclusivos.


Para o jornalista Antonio Carmo, a chegada do grupo Oscar Calçados foi primordial para a manutenção da identidade do São José E.C: “Para o São José, a chegada do Grupo Oscar foi espetacular. Por quê? O Oscar é da cidade. Então, ele tem um comprometimento e um compromisso com a coletividade joseense”.

O São José também apresentou uma nova estrutura administrativa e técnica, com meta inicial clara: reorganizar a casa, estabilizar as finanças e retomar o protagonismo esportivo.


Nos bastidores, a Gros Participações, empresa do Grupo Oscar responsável pela administração da SAF, assumiu a gestão financeira do clube e iniciou o pagamento gradual das dívidas herdadas. Em 2023, o São José apresentou receita de R$2,7 milhões e despesas próximas a R$6,7 milhões, cobertas parcialmente por um aporte de mais de R$4 milhões feito pelo grupo. Apesar dos custos elevados, a SAF alcançou resultados significativos dentro e fora de campo: o retorno à Série A2 do Campeonato Paulista, com acesso logo no primeiro ano, e a volta ao cenário nacional, garantida com o vice-campeonato da Copa Paulista.

Final da Copa Paulista, com o acesso garantido para o Brasileirão Série D 2024 - Foto: Rodrigo Lopes
Final da Copa Paulista, com o acesso garantido para o Brasileirão Série D 2024 - Foto: Rodrigo Lopes

O impacto também foi sentido nas arquibancadas. A Águia registrou a melhor média de público da Série A3 e da Copa Paulista em 2023, superando 4.000 torcedores por jogo. O clube também anunciou que vendeu mais de 8.000 camisas e alcançou mais de 2.000 adesões no programa de sócio-torcedor. O fortalecimento da marca foi consolidado com a parceria com a empresa italiana Diadora, que passou a fornecer os uniformes a partir de 2024, e com o retorno de patrocinadores locais.


Até o momento da publicação desta reportagem, o Grupo Oscar Calçados foi procurado, mas não houve respostas.


Estrutura, resultados e desafios da nova gestão

Com o apoio do Grupo Oscar, o São José avançou em um dos maiores projetos de infraestrutura da sua história: a construção do centro de treinamento “Ninho da Águia”, localizado na zona norte da cidade. O complexo de 200 mil metros quadrados contará com oito campos, miniestádio, núcleo de saúde e performance, hotelaria e alojamentos. Duas áreas de treinamento já estão em uso pelo elenco profissional, enquanto o restante do projeto tem conclusão prevista para 2029. O espaço é visto como um pilar da nova gestão e um passo fundamental para profissionalizar o futebol joseense.

Local onde será construído o Centro de Treinamento - Foto: São José E.C
Local onde será construído o Centro de Treinamento - Foto: São José E.C

Outro marco importante foi a assinatura, em outubro de 2023, do contrato de concessão do Estádio Martins Pereira à Gros Participações. O acordo, válido por 25 anos e prorrogável por mais dez, concede à empresa o direito de administrar e explorar comercialmente o estádio, que se tornará também um centro de eventos e negócios esportivos. Em troca, 11,7% da receita bruta gerada será repassada à Urbam, antiga administradora pública do espaço.


No aspecto esportivo, a SAF manteve o projeto de crescimento, mas o ano de 2025 consolidou os desafios de equilíbrio entre investimento e resultado. Após uma temporada anterior de altos custos e queda de desempenho na Série D, o São José conseguiu se estabilizar na Série A2 do Campeonato Paulista, terminando o torneio na segunda fase da competição, mais uma vez. O clube também voltou a disputar a Copa Paulista, apostando na base e em contratações pontuais. Apesar de ainda operar com despesas superiores às receitas, a gestão manteve os aportes do Grupo Oscar.


O impacto econômico da SAF vai além dos números. A chegada do Grupo Oscar movimentou a cadeia esportiva da cidade, gerando empregos, ampliando parcerias com empresas locais e atraindo novos investidores. Institucionalmente, o clube ganhou governança mais profissional, com metas e prestações de contas públicas, algo raro no futebol regional. A base, que voltou a ser gerida integralmente pelo São José em 2024, passou a ter estrutura própria, categorias Sub15, Sub17 e Sub20, e parcerias sustentadas por leis de incentivo fiscal.


O Gerente da Base do São José, Renato Santiago, demonstra otimismo em relação ao futuro do clube: “Eu não tenho dúvida que o São José, por uma questão de tempo, ele vai voltar à primeira divisão, ele vai estar no cenário paulista, ele vai estar no cenário brasileiro, brigando por Série B de brasileiro, como o Mirassol, uma Série A também. É possível, desde que se faça, o que está acontecendo aqui. Se monte uma estrutura condizente com os voos que a nossa águia quer alcançar”.


Mas nem tudo é positivo. A dependência dos aportes do grupo gestor e a dificuldade de tornar o clube auto sustentável ainda são desafios centrais. A direção ainda enfrenta constantes protestos de torcedores organizados, que questionam a forma de gestão.


Mesmo diante dos obstáculos, a transformação do São José em SAF representa um novo capítulo na história do clube. A Águia do Vale, que já viveu crises e recomeços, hoje busca estabilidade sob um modelo de gestão empresarial que promete modernizar o futebol da cidade e recolocar o clube em voos mais altos.




 
 
 

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