SAF no Futebol Brasileiro: avanços, desafios e perspectivas
- Fernanda Gaspar
- 16 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 24 de nov. de 2025
A criação da Lei nº 14.193, em agosto de 2021, inaugurou uma nova fase para o futebol brasileiro ao regulamentar a Sociedade Anônima do Futebol (SAF).
O modelo, inspirado em experiências europeias, abriu a possibilidade de clubes nascerem já no formato empresarial ou migrarem da tradicional associação civil para o novo sistema, transferindo total ou parcialmente seu patrimônio para uma estrutura mais profissionalizada. A promessa era clara: modernizar gestões, atrair investimentos e oferecer uma saída sustentável para entidades atoladas em dívidas e crises administrativas.
De lá para cá, o Brasil viu alguns de seus clubes mais tradicionais embarcarem na transformação. O Cruzeiro foi o primeiro grande a seguir esse caminho, em 2021, com Ronaldo Nazário adquirindo 90% das ações da SAF. A presença do ex-jogador, um dos maiores nomes de todos os tempos do esporte, conferiu credibilidade inicial ao modelo, mas, em 2023, ele vendeu sua participação para o grupo BPW Sports Participações LTDA, evidenciando que a SAF também está sujeita à lógica empresarial de compra e venda.
Logo depois, o Botafogo passou ao controle do norte-americano John Textor, o Vasco foi adquirido pela 777 Partners e o Bahia entrou para o portfólio do City Football Group, conglomerado que comanda o Manchester City e diversos outros clubes ao redor do mundo.
Os resultados esportivos e financeiros desses casos foram distintos. O Botafogo, por exemplo, viveu um salto vertiginoso, conquistando o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores em 2024, menos de três anos após a chegada de Textor. Já o Cruzeiro conseguiu voltar à Série A e recuperar parte da estabilidade perdida, mas passou por uma mudança de controle que expôs a complexidade do modelo. O Bahia iniciou um processo de modernização de estruturas e categorias de base, e também voltando à disputar a Libertadores, enquanto o Vasco enfrentou turbulências severas: em 2024, o contrato com a 777 Partners foi suspenso por decisão judicial, e a administração retornou temporariamente ao clube associativo, criando uma das maiores inseguranças jurídicas do futebol recente.
Esses episódios demonstram tanto o potencial quanto os riscos do modelo. Para o advogado e especialista em direito desportivo Guilherme Lipi, a lei da SAF “atende às necessidades de modernização que a gente tem no futebol, mas, conforme o dia a dia for ocorrendo, talvez sejam necessárias alterações em decorrência das experiências que forem surgindo” (ouça o podcast com a entrevista completa no final da página). Ou seja, a legislação forneceu uma base sólida, mas o sucesso de cada caso depende, sobretudo, da forma como os contratos são elaborados e dos investidores escolhidos.
O perfil desses investidores varia. John Textor, empresário americano do ramo de tecnologia e mídia, aposta em um projeto de rede global de clubes, com parceria entre Botafogo, Lyon e Molenbeek. O City Football Group segue uma lógica semelhante, integrando o Bahia a uma engrenagem mundial que já provou eficiência no desenvolvimento de atletas e na expansão de marca. Já Ronaldo Fenômeno, ao adquirir o Cruzeiro, ofereceu uma ligação emocional com a torcida, mas mostrou que o envolvimento individual tem limites diante da necessidade de capital, ao negociar a venda para outro grupo. Por outro lado, a 777 Partners é um exemplo de investidor questionado: atua em diversos clubes europeus, mas acumula críticas sobre gestão, transparência e solidez financeira, sendo alvo de desconfiança de torcedores e especialistas.
Esse mosaico de perfis traz um ponto central levantado por Guilherme Lipi: a urgência de evitar aventureiros. “O clube tem que exigir garantias de que os investidores tenham capacidade econômica e administrativa. É preciso evitar aventureiros que acreditam em retorno rápido, porque o futebol é uma atividade sustentável em longo prazo, mas que requer muito investimento inicial”, afirmou. Ele alerta que muitos enxergam no futebol um atalho para lucros imediatos, apostando na venda de jovens talentos como se fossem ativos financeiros prontos para explodir no mercado. Na prática, esse retorno raramente vem em curto prazo. Sem paciência e capital consistente, investidores podem abandonar o projeto, deixando um amontoado de prejuízos para clubes e torcidas.
O caso do Vasco escancara esse risco. A suspensão do contrato com a 777 Partners, decidida pela Justiça, gerou insegurança jurídica que travou negociações de SAFs em outros clubes, mostrando como falhas de governança ou falta de confiança nos investidores podem abalar o ecossistema inteiro. Para Lipi, o maior desafio não está na lei em si, mas nas decisões judiciais que definem o rumo das SAFs: “Se elas não garantirem a permanência dos investimentos, a SAF perde credibilidade no mercado.”
A expansão das SAFs no Brasil é um movimento que altera não apenas a esfera administrativa, mas também o caráter cultural do futebol. Ao mesmo tempo em que modernizam estruturas, atraem capital estrangeiro e prometem maior competitividade, elas despertam temores sobre elitização e perda de identidade dos clubes, que deixam de ser de seus sócios e passam a responder a investidores. Essa dualidade reforça o quanto o debate ainda está em construção.
O futuro da SAF no Brasil dependerá de equilíbrio. De um lado, a lei precisa ser aplicada com segurança, permitindo que investidores sérios tenham estabilidade para aportar recursos. De outro, os clubes precisam realizar “raios-X” rigorosos, avaliando minuciosamente quem assume o controle do futebol. Exigir garantias financeiras, contratos detalhados e responsabilidade de longo prazo é essencial para que o modelo não se torne uma oportunidade para aventureiros, mas sim uma chance real de fortalecimento do esporte.
Nesta reportagem, apresentamos um panorama da SAF no país e
ouvir no player abaixo, aprofunda o tema: falamos sobre contratos, responsabilidades jurídicas, riscos e perspectivas para clubes grandes, médios e pequenos.








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